• Denis Canal Mendes

A formação como analista junguiano

Os 25 anos do Instituto Junguiano de São Paulo-IJUSP da Associação Junguiana do Brasil-AJB & IAAP (Zurich)[1]

[1] Denis C. Mendes – Psicólogo, Analista-didata do IJUSP & AJB et IAAP, Especialista em Saúde Mental-SES, Mestre em Psicologia Clínica-PUCSP e autor do livro: “O Psicopompo e a Clínica Ampliada”. São Paulo: Dobradura Editorial, 2018.


O caminho daquele que virá... (C.G.Jung, [1917] 2010 p.229)



Desde muito cedo estive envolvido com os mistérios da psique humana e o tema da loucura. Meu interesse por música, arte, educação e atividades esportivas estabeleceram os pilares da minha construção pessoal, como também se tornaram os alicerces da minha formação profissional, fomentando o meu caminho como psicólogo e analista.


Me aproximei da Psicologia Junguiana por conta do conceito de individuação no final dos anos 80, quando tive acesso ao livro Memórias, Sonhos e Reflexões (1975) pela primeira vez. Meu interesse investigativo levou-me em direção aos trabalhos de C. G. Jung (1875-1961) e posteriormente até a Dra. Nise da Silveira (1905-1999) na clínica da psicose. Foi na busca e na compreensão desses autores que me deparei com esse tema. Na individuação ocorreria um processo interior de integração dos conteúdos inconscientes à consciência e isso provocaria o encontro com o nosso ser mais criativo. Essa imagem suscitava em mim uma possibilidade ímpar de estudar e entender o desenvolvimento humano.


A memória é um arquipélago de reedições e nela atento-me a um momento singular no IX Simpósio da Associação Junguiana do Brasil-AJB “Eficiência e/ou Transformação”, realizado em Águas de Lindoia no ano de 2001. Ao som do violino do dr. Joel Giglio e das palavras do analista californiano dr. Michel Feldman sobre “o sentido maior da prática clínica junguiana”, era plantada a primeira semente em minha alma, que me dirigiria na direção do curso de formação para analistas junguianos do Instituto Junguiano de São Paulo – IJUSP & AJB et IAAP (Zurich).


Sabia-se naquela época da existência dos principais precursores da psicologia junguiana no Brasil: os doutores Nise da Silveira, Petrô Sándor e Leon Bonaventure (Motta, 2010). Esse último, um analista belga que se instalara em São Paulo, em meados dos anos 70, a fim de divulgar o pensamento junguiano, cooperando para a fundação da primeira sociedade junguiana oficial (SBrPA). De onde, posteriormente, brotaria a nossa AJB, com seu licenciamento em 1991, protagonizado pelo analista e presidente dr. Thomas Kirsch, à frente da IAAP (Zurich) naquela época quando veio ao Brasil.


Sabe-se que a graduação em psicologia é um corredor inquietante para estudar o mundo psíquico e para tornar-se um bom psicoterapeuta. Porém, para ter uma boa formação clínica, é necessário estar em constante aperfeiçoamento e, como Freud e Jung citam ao longo de suas obras, uma boa formação clínica é concebida através do tripé analítico: formação teórica (grupo de estudos e seminários), análise pessoal (equação pessoal) e supervisão clínica (orientação sobre os casos clínicos em atendimento).


Assim, no desejo de tornar-me analista junguiano, fui em busca de uma formação séria, sólida e que seguisse os critérios exigidos pela International Association for Analythycal Psychology (IAAP). Dessa maneira, ingressei nos quadros da Associação Junguiana do Brasil, em um dos seus nove Institutos – Instituto Junguiano de São Paulo, em 2003.


Foi com grande alegria e satisfação que fui aprovado na seleção em 2002 e iniciei a minha trajetória em 2003, fazendo parte da terceira turma do curso de formação para analistas. Durante o percurso da formação, é de conhecimento de todos que o processo é árduo, custoso e profundo: supervisão e análise pessoal, seminários teóricos e clínicos com duração de, no mínimo, sete anos, sendo marcados por um processo regido pela metáfora do sacrifício: sacro ofício em prol da transformação psíquica.


Na formação oferecida pelo IJUSP & AJB et IAAP (Zurich) é possível ter acesso a psicologia analítica clássica, estudando os textos das Obras Completas (OC) de C. G. Jung. Nos seminários, temos contato com a primeira parte da obra do “Dr. Jung” até 1930/34 e, posteriormente, a segunda etapa (OC): a do “Prof. Jung”, onde consideramos seu aprofundamento, sendo sua fase mais madura, do seu Opus Alquímico. Também nos seminários, estudamos os autores/analistas junguianos da primeira geração, como: Von-Franz, Fierz, Mindel, Meier, Holf, entre outros. Ao longo dos anos da formação, vamos sendo contemplados por autores pós-junguianos, como Neumann e Hillman, e também outros autores/analistas mais contemporâneos: Jacobi, Hopkins etc. Isso tudo sendo vivenciado pela troca de experiências com os colegas e analistas sêniores, que proporcionam uma vivência enriquecedora, fazendo a ponte entre a prática clínica, à teoria e a percepção do sentido maior da psicologia junguiana.


A formação do IJUSP oferece, além de tudo, uma experiência ímpar: a ideia de pertencimento a um grupo afetivo e especial. É possível dizer que a inserção nessa instituição metaforiza a ideia do “Ethos Humano”. Quer dizer, da morada da alma, onde é possível um compartilhar e beber da fonte do movimento junguiano legítimo e fértil.


Além disso, é possível compartilhar com membros dos outros institutos da própria AJB, como os doutores: Walter Boechat (IJRJ), Elizabeth Zimerman, Joel (IPAC), Lurdes C. (IJPR), além de colegas convidados de outras áreas, como: dr. Victor Salis, dr. Roberto Gambini, Victor Stirman, Sonu Shandasani etc., além de membros analistas de sociedades internacionais vinculadas a IAAP, como Thomas Kirch, Murray Stein, Verena Kast, Luigi Zoja, Hester Solomon, Marion Woodman, John Beebe, Andrew Samuels, Ann Ulanov e Ton Kelly, que puderam compartilhar da sua experência clínica e teórica, contribuindo para uma formação ímpar enquanto analista junguiano.


A longo desses anos de formação, muitos temas tornaram-se relevantes para o estudo, mas o advento do Livro Vermelho (L.V.) de C. G. Jung, em 2009, tornou-se para mim um marco. A ideia inicial de estudar e vivenciar o L.V. surgiu da percepção de que algo diferente aconteceu na experiência de Jung na construção dessa obra. Assim, iniciamos um trabalho em grupo, juntamente com as analistas e doutoras Cristiane Adamo e Martha Virginia, que foram fundamentais para a expansão dessas reflexões e do olhar crítico sobre as imagens e os conceitos desenvolvidos no período do L.V.


Posteriormente, fruto desse grupo e também através de um sonho, surgiu, em 2016, a inspiração para um projeto de pesquisa de mestrado, que teve apoio e orientação do analista-ditada e prof. dr. Durval L. Faria, com a interlocução propícia para a materialização da pesquisa: “O Livro Vermelho de Carl Gustav Jung no trabalho clínico do analista junguiano na América Latina”. Esse trabalho deu seus voos e aterrizou no congresso internacional da IAAP em Viena, Áustria, em 2019.


É lógico que essa trajetória não se fez sozinha, mas a partir do lócus operandi criativo, com encontros e interlocuções com os mais queridos e diversos analistas e colegas que permeiam, acompanham e reiteram essa jornada itinerante dentro do movimento junguiano, incubada dentro da AJB como um todo.


Gratidão! Agradecemos a todos os que passaram, como a dra. Priscila Caviglia (in memorian) e a todos que se fazem presentes e atuantes, somando hoje, entre analistas e analistas-didatas, 41 membros.


Sincronicidades ou epifania? Em 2019, nossa instituição completou a maioridade com seus 25 anos, concomitantemente à minha titulação de analista didata. Só tenho a agradecer pela inspiração e pela possibilidade de pertencimento ao movimento junguiano contemporâneo autêntico, do qual o IJUSP faz parte. Deixo a mensagem de Jung:


Nós não somos os criadores de nossas ideias, mas apenas seus porta-vozes; são elas que nos dão a forma... e cada um de nós carrega a tocha que no fim do caminho outro levará. (Jung, [1961 1975, p.8)
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