• Denis Canal Mendes

Afeto: uma distinta relação do homem com a sociedade

Updated: Jul 16

Entre o discurso e a realidade das ações existe um desfiladeiro, uma distância enorme, um lugar vazio que muitas vezes necessita ser visto, ser trazido à tona


Afeto. Todos creditam a essa palavra algo maior, mas será que todos nós contribuímos e disseminamos para a que realmente esse "sentimento" se propõe? Será que todos nós, membros e protagonistas desta sociedade pós-moderna, vislumbramos o seu sentido?


Afeto e seus significados


“Afeto é sinônimo de emoção; sentimentos de intensidade (...) uma explosão de afeto é a invasão do indíviduo (...) Nossas emoções nos acontecem (...) O afeto revela a posição relativa e a força de valores psicológicos.

Afeto: do grego afetar; tocar o outro; inferir, introduzir algo, ir mais além, sensibilizar... Afetado: do Aurélio afeição; amizade, simpatia; paixão; amigo, afeiçoado, atacado, atingido... Pensando ainda mais: Afetividade; qualidade dos afetos; Afetivo: relativo aos afetos; sentimentos, sensações.... Tantos são os sinônimos, seus paradoxos, quantos e quantos, etc... Inúmeros são os autores que tentaram aprofundar o tema: na psicologia, na medicina, sociologia; tantos são os estudos e pesquisas científicas (1). Na psicologia analítica: “afeto é sinônimo de emoção; sentimentos de intensidade (...) uma explosão de afeto é a invasão do indíviduo (...) Nossas emoções nos acontecem (...) O afeto revela a posição relativa e a força de valores psicológicos”(2), enfim, pelo mundo afora, há tempos bem longínquos, desenvolvem-se teorias (3), na tentativa enigmática de explicar, entender e conceituar o Afeto. Mas será que isso é possível?


Pois bem, percebemos, na pós-modernidade, que o tema está ainda mais que atual, é de vanguarda. Promovem-se todos os dias campanhas publicitárias, ensaios jornalísticos, workshops, tudo para "nomear, entender, racionalizar e conceituar" o Afeto, mas pouco se dá atenção ao que "realmente esse sentimento suscita". O discursso é de "ser afetivo, cuidadoso, acolhedor", sinônimos irmãos, mas no final a atitude em relação ao outro é a mesma: a de barbárie.


As emoções de lidar


Entre o discurso e a realidade das ações, existe um "desfiladeiro", uma distância enorme, um lugar vazio, que muitas vezes necessita ser visto, ser "trazido ao termômetro da visão", pois a grande dificuldade, está aí, pois há uma necessidade excessiva de negar esse lugar vazio nesse distanciamento, pois tenderíamos a frieza.

Engraçado, pois no ano que comemoramos o centenário do nascimento da Dra. Nise da Silveira, grande terapeuta que propôs o afeto, o acolhimento, o cuidado como instrumentos fundamentais da "práxis terapêutica" dos profissionais da saúde, nós ainda estamos e continuamos mais distantes de aproximar e priorizar realmente o que sentimos e chamamos de Afeto.


É engraçado, porque foi ela, através de sua trajetória nos Hospitais Dom Pedro II, Engenho de Dentro e Juliano Moreira, quem apresentou para nós o quanto essas dificuldades emocionais e/ou afetivas eram capazes de produzir estragos, levando os pacientes a uma crise psicótica. Nise propõe através da idéia "emoções de lidar", um método de tratamento para os pacientes psicóticos crônicos e asilados da sociedade. A Dra. realça que, através do contato humano, da proximidade dos profissionais com esses pacientes em tratamento, quer dizer: através do Afeto, do Acolhimento, da Sensibilidade, que se dava a melhora dos quadros psicóticos, da inserção social, pelo menos no âmbito do contato e das relações. Sensível, não!?


O vale que separa as duas montanhas


"É impossível passar desapercebido, desconectado, desanimado, sem alma, pelo encontro entre as duas montanhas".

Engraçado, já nós, em nossos consultórios, enquanto terapeutas, promovemos a "afetividade das relações", o re-ligare da alma, a ortodoxia dos sentimentos, pois acreditamos que isso é o que está faltando ao homem e a sociedade moderna. Mas será que não convergimos também para um antagonismo conceitual da formatação do que seja Afetivo? Será que não pressupomos um olhar, muitas vezes racionalizando o individuo como um ser sem Afeto, para esse ser humano que julgamos empobrecidos e fruto de uma sociedade incoerente?


Acredito que não, mas, desconfio que muitos de nós, ainda cometam a grande cisão: consultório "o terreno do Afeto" e a “realidade das relações” na sociedade. Não irei me ater detalhadamente a esta construção, mas sim a essa metáfora: O VALE QUE SEPARA AS DUAS MONTANHAS.


É por conta disso que mais e mais sugiro um questionamento: estamos frios e enrijecidos? Será que estamos sem Afeto afinal? Acredito que não, mas penso que esse sentimento está na intersecção entre essas duas montanhas e é no vale a grande saída: é no mergulho, na descida. Isto é, imprescindível para a construção das relações.

Afetar e ser Afetado


Acredito que não podemos ficar somente na superficialidade do contato, no óbvio das relações, temos que ir além das aparências, da fachada, das relações superficiais, pois o grande caminho é a descida para o encontro, para o mais profundo em nós. Mas e o medo de ser Afetado? Em se perder nas emoções e nos seus desdobramentos? Receio de ser manipulado, ser traído, ferido, faz com que carreguemos armaduras e instrumentos de proteção, muitas vezes necessários, mas extremamente prejudiciais e nocivos às relações humanas.


Imprescindível para quem quer viver a sua totalidade é o caráter humano do sentir e do estar. É factual: temos que ser Afetados; tocados e emocionados por algo do outro ou estaremos apenas “vivendo como um rolo compressor pela vida”. No nosso dia a dia, no cotidiano, negamos esse aspecto, que corrobora para cada momento no encontro com o outro, tanto na rua, quanto na nossa casa, no trabalho, escola, etc, pois ao negligenciarmos o Afeto, ficamos paralisados, colados ao conformismo, à superficialidade, ao nepotismo, à dissimulação e à perversão.


O grande terapeuta hoje deve ser Afetado pelo olhar crítico, pela humildade, pelo sentimento híbrido que está por trás dos discursos convincentes, das verbalizações coerentes, das psicopatologias, tentando semear o processo de “Afetar” tanto o outro, quanto a si e respectivamente a sociedade. A poética da alma é o encontro com o inusitado; Afetar e ser Afetado, esse eu em relação com esse outro. Temos que ter esse discernimento, pois essa distinção limiar é extremamente importante e necessária para a construção do quanto eu posso me Afetar. É impossível passar desapercebido, des-conectado, des-animado, sem alma, por esse momento crucial: a aproximação entre as duas montanhas através da travessia pelo vale.


Enfim, se hoje podemos ainda ser Afetados pela magia da esperança, pela força da sensibilidade, acredito que um amanhã possa ser algo ainda maior e transcendente, pois só no enfrentamento com esse desconhecido, só na descida ao vale, que podemos resgatar a humanidade das relações, a humildade do encontro, do amor e começar, afinal, a ter coerência e bom senso. Nós somos o amanhã e o amanhã começa pelo hoje, no aqui e agora. Que sejamos afetados pela beleza do olhar, pela simplicidade da música e da poesia da vida.

Notas:

(1) Existem diversos estudos e pesquisas sobre o tema, além de livros, etc. Tendo em vista a proposta do texto não ser científica não iriei aprofundar sobre essas questões.

(2) Samuels, Andreew. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. Rio de Janeiro. Imago Ed. 1988.

(3) Existem autores consagrados da psicologia, psicanálise, entre outros, que falam sobre o tema.

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