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  • Writer's pictureDenis Canal Mendes

A Sombra e a COVID-19

SOMBRA


"Dia e Noite", de M.C. Escher (xilogravura, 1938)
Uma das raízes mais fortes do mal é a inconsciência.” WAHBA, 2022

Sabemos que esse conceito é de suma importância para a compreensão da práxis da Psicologia Analítica. Quando exploramos sua perspectiva e relevância, adentramos em aspectos dinâmicos carregados de uma intensidade emocional que podem modificar a disposição psíquica do indivíduo, tanto com relação ao mundo exterior quanto ao seu mundo interior: sua psique.

Refletimos sobre o desenvolvimento da formação entre os pares: ego e sombra, que se relacionam mutuamente ao longo da experiência de vida do indivíduo, e percebemos o quanto é importante essa interrelação (ZWEIG e ABRAMS, 1994).


Cabe destacar que chamamos de sombra[1] a parte obscura da nossa personalidade. É aquilo que desconheço em mim mesmo. Ela pode conter aspectos reprimidos, recalcados ou desconhecidos ao complexo do eu. Significa que na sombra existem aspectos da personalidade que ainda não foram desenvolvidos. É a partir da sombra que está a tarefa do processo de individuação.


Podemos pensar então que a sombra coletiva[2] seria esse aspecto mais ampliado, onde constelam os grandes temas de um grupo, sociedade ou nação. Está para além da perspectiva individual e carrega aquilo que é negado, reprimido na cultura de uma sociedade, e, na maioria das vezes, é projetada. Nesse sentido, é interessante correlacionar a sombra coletiva à imagem da Umbra Mundi[3] (STEIN, 2020) dando este significado maior, no sentido paradoxal de espelhamento com a imagem da Anima Mundi, para assim retratarmos o fenômeno da Covid-19 e as repercussões vivenciadas por todos nós, a partir da eclosão desse episódio marcante da história da humanidade.


[1] Grifo do autor.

[2] Ibid.

[3] *Entrevista com Dr. Murray Stein ao Dr. Robert S Henderson em março de 2020. Acesso nov2023: https://www.blissnow.com.br/2020/06/murray-stein-e-umbra-mundi-2.html  

UMBRA MUNDI

"A avalanche dos acontecimentos de uma época não é perceptível apenas no lado de fora, isto é, no mundo exterior (...) o terapeuta não pode prescindir de uma discussão com o seu tempo por mais que o alarido político, o embuste da propaganda e o grito desafinado dos demagogos lhe causarem repugnância. O que ressaltamos não são os deveres de cidadão que exigem algo semelhante, mas, essencialmente, os seus deveres como médico que lhe impõem uma obrigação ainda mais elevada, o compromisso COM O HOMEM[4]. Jung, 2010 [1933] Vol.10/2. OC

O ano de 2020 foi marcado por um momento díspare. Relembremos os acontecimentos que nos trouxeram até aqui para que possamos captar o espírito do tempo. Em meados de 2019, na cidade de Wuhan, no interior da China, fez-se um alerta sobre o surgimento de um vírus letal – SARS-COV-2. Uma epidemia deflagrada, que logo alcançaria uma velocidade de propagação e contaminação em âmbito intercontinental, levando a sociedade a encarar uma nova pandemia em pleno século XXI. Chamamos de pandemia quando uma doença epidêmica infecciosa e muito contagiosa se propaga de tal maneira que atinge todos os continentes do mundo, causando medo, insegurança e, consequentemente, a morte.


Com a pandemia iniciada em janeiro de 2020, pelo Novo Coronavírus ou Covid-19, surgiu rapidamente a sensação de insegurança pelos países, causando pânico e, assim, uma crise nas mais variadas esferas da vida: saúde, educação, família, economia, social etc.


Em pouco tempo a OMS (Organização Mundial da Saúde) manifestou preocupação com a proliferação pandêmica, considerando o risco de infecção e de mortes de milhões no mundo inteiro, com efeito maior ou até pior do que a Gripe Espanhola[5], que assolou a Europa no final da Primeira Guerra Mundial (1914-18).


A Covid-19 causou mortes, avançou pelos países, provocou mudanças de hábitos, questionou o papel do Estado, limitou a atuação médica, profetizou o fim do mundo, persistiu na insensatez e na crueldade do ser humano, erradicou a circulação nas ruas, paralisou o trabalho, fechou escolas, restaurantes, bares e promoveu o que o músico Raul Seixas (1978) profetizou: “o dia que a terra parou”.


Essa crise mundial instaurou várias mudanças emergenciais devido à vulnerabilidade do indivíduo e da sociedade. Como diziam os especialistas, aquilo que estava acontecendo lentamente eclodiu, tornando-se uma emergência por conta da necessidade de adaptação às restrições sociais, ao isolamento e ao confinamento. As manifestações desenfreadas pela necessidade de se sentir vivo, existente e conectado tornaram a vida virtual mais do que real, necessária. 


É indiscutível que já estávamos vivendo, progressivamente, um aumento do uso da tecnologia na rotina do dia a dia, deixando as pessoas conectadas nas redes virtuais por longos períodos (ADAMO & MENDES, 2020). Porém, com o advento da Covid-19, fomos convocados a buscar novas possibilidades de comunicação, por meio de nossos computadores, celulares e tablets, equipamentos conectados via internet.


Com a chegada repentina da pandemia e a restrição do contato pessoal, as tecnologias invadiram bruscamente as rotinas de vida, a forma de trabalho e a comunicação pessoal. O contato com o computador e os diversos recursos da tecnologia deixaram, cada vez mais, de ser um acontecimento ocasional, à medida que o número de atividades mediadas pela internet aumentou de maneira significativa e desordenada. Fomos todos obrigados a nos adaptar às novas formas de conexão, mas a que preço?


A palavra "conexão", tão própria da linguagem digital, pode ser um ponto de partida para a reflexão deste trabalho, mas a dissociação entre a vida virtual e a real ficaram evidenciadas. As pessoas atualmente vivem conectadas, mas a quê? Ao mundo “fora”, ao mundo virtual? De quais conexões estamos falando? A perspectiva da sombra do bode expiatório se manifesta nesta divisão, a Umbra Mundi?


Como essas inquietações nos provocam a continuar a viver? A relação com a Anima Mundi e o impacto psicológico da pandemia Covid-19 trouxeram motivos a serem estudados: o comportamento humano, a visão da inocência e da ingenuidade de uma esperança de mudança, onde o mal não existe? (WAHBA, 2020) Uma utopia do resgate de atitudes mais humanas de respeito ao próximo, ao outro.


A hipótese de afastamento e desconexão com o mundo interior e a supervalorização das conexões externas e virtuais acabaram nos direcionando a reflexões e questionamentos sobre o real espaço que estamos dando para as relações presenciais, o contato humano, os nossos desejos mais íntimos e os sonhos, “onde a Alma se revela”.


O que a Alma do mundo espera de nós? Quais os rumos da vida de agora em diante, entre a endemia e os surtos da Covid-19? Quando pensamos na psicologia analítica, quais seriam os aspectos descritivos dessa sombra coletiva, essa peste da atualidade, que invadiu a vida, modificou comportamentos e nos apresenta um dilema arquetípico: o que é estarmos vivos? O que consideramos importante? 

Não tenho medo da morte. Temo pelo que pode morrer quando ainda estamos vivos.” NERUDA, 1993

Qual é o nosso papel diante da possibilidade de contágio, adoecimento, recuperação ou possível morte? Dá para continuarmos? Dá para atravessarmos tudo isso, achando que tudo irá voltar ao “normal”? Ou será um “novo normal”? Considerando essa perspectiva, refletimos que “o novo nunca é normal, digamos; pois, quando se normaliza, já é velho, no sentido de se tornar habitual, usual, comum, normativo” (BARCELLOS, 2020 p.142); e, nesse sentido, nos acostumamos com a situação imposta.


A pandemia trouxe uma dinâmica interessante, que se polarizou entre os indivíduos: num primeiro momento, a questão da negação da contaminação e, depois, no outro pólo, o excesso de cuidados por medo excessivo da contaminação, o medo da morte. Essa polaridade acentuou sintomas referentes a fobias sociais, excedeu em seus excessos, gerando hipocondrias, atitudes de autorreferência, sensações persecutórias – no seu extremo, a própria paranoia. Assim, acentuou-se a questão da assepsia como instrumento de controle e proteção.


Isso afastou o contato humano? Essa situação promoveu ambiguidades que transitam entre o egoísmo e a falta de sensibilidade e, por outro lado, também o sentimento de pertencimento e solidariedade. Onde estamos então? Para onde olhamos? Onde foi parar a nossa humanidade, aquele sentimento de empatia e de solidariedade? Perguntamos onde está a Alma? Onde está a Alma do Mundo? A perdemos com tudo isso ou o que ganhamos?


Percebemos que, ao resgatar o tema Alma, reconhecemos o conceito de Alma que esteve no cerne da concepção junguiana, para além da ideia antagônica de psique. Consideramos então a psicoterapia como o tratamento da Alma: psico (psique) = Alma; terapia = tratamento, o substantivo fundamental da essência do nosso trabalho. Este se faz tão atual que, quando falamos da Alma, do seu tratamento, falamos do sentido mais profundo em nós, aquilo que nós, junguianos, consideramos como processo de individuação, metáfora básica do trabalho da análise junguiana.


A Alma do mundo revela a nossa arte e, dessa relação com o mundo existente, a necessidade do cuidado com a nossa existência, com a natureza, com a nossa vida. É entre esse diálogo insistente do espírito do tempo – o Zeitegeist e o espírito das profundezas, que surge a pergunta: onde está você, minha Alma? E ampliamos para além da psique individual, indo em direção a psique coletiva: Anima Mundi – “a Alma do mundo”, o mundo animado, aquele mundo que nos encanta, que desejamos, cheio de sentido e relacional – uma vida com presença, empatia pelos seres vivos, objetos, formas, sons, sensações e desejos. Que vida era essa das grandes cidades onde vivíamos? Do mundo exterior? Dos sentidos e literalidades?


A Anima Mundi revela nossa natureza maior, uma natureza que está enraizada no contato com a terra, as árvores, a vegetação, o rio, o mar. Uma natureza de integração e em relação com tudo isso, uma relação com a vida, com o cuidado, com o amor; uma vida relacional, de empatia com o ser humano, de afeto e de relação com o outro. Que vida é essa, caracterizada pela perspectiva do fazer, do consumir, do ter e não do ser? Qual o convite que a Umbra Mundi quer nos mostrar? O que a introversão da vida e do mundo interior nos convida a ser?


A Covid-19 nos chamou a confrontar nossa pequenez e nossa finitude, olhar para a Umbra Mundi, nos reservando a perspectiva do que é importante, qual é o significado maior da nossa existência, da nossa essência, da nossa Alma individual como também a Alma do mundo. Assim como no filme “O Pianista” (2003), de Roman Polanski, onde a dimensão da pequenez do indivíduo, diante da tragédia coletiva causada pela devastação da guerra, fala do que é realmente importante e apresenta a catástrofe e o mal na sua dimensão mais ampliada.


Enfim, todos esses questionamentos são o aperitivo de uma outra pesquisa que pretendemos iniciar, a qual fomos convocados a realizar, a partir dos adventos coletivos evidenciados em 2020, nos obrigando, enquanto profissionais da área da saúde mental, em especial os psicoterapeutas, a desenvolver e a atuar em um novo papel. A pergunta de pesquisa passa pelo papel da análise junguiana hoje, nesse paradoxo virtual x presencial, ou seja, compreender o trabalho clínico e o encontro terapêutico. Qual o aspecto da “pessoalidade nesse encontro humano”, que na pessoa e presença do analista se dá este acontecimento? Além de perceber como essa relação terapêutica acontece, como se dá este corpus operandi curatonis, de corpo inteiro, ou transfigurado pela tela ou para além dela? Como se dá o procedimento e método de trabalho nesse encontro humano?  


[4] Ibid.

[5] Ao longo na humanidade tivemos cinco grandes pandemias: 1ª Peste Negra (Peste Bubônica), 2ª Varíola (340 a.c), 3ª Cólera (1817); 4ª Gripe Espanhola (1918) e a 5ª Gripe Suína (H1N1) 1ª pandemia do século 21.   


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  


Adamo, C & Mendes, D. C. (p.171-196) In: [“Tecnologia & Alma” GAETA, I e Vergueiro, P. V. (org) São Paulo: Sattwa, 2020].

Barcellos, G. (et al.) Novo normal? provocações sobre o tempo, liderança, relacionamentos e o si-mesmo. Petrópolis-RJ: Vozes, 2020.

GRAUBART, Silvia E. F. Anima Mundi: o mundo como paciente. São Paulo: Sattwa, 2018.

Jung, C. G. e Jaffé, Aniéla (org). Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C. G. Aspectos do Drama Contemporâneo. OC Vol. 10/2. Petrópolis-RJ: Vozes, 2011.

______, O Livro Vermelho. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010.

PERERA, Sylvia Brinton. O complexo do bode expiatório. São Paulo: Cultrix, 2022.

WAHBA, Liliana L. Imaginação do Mal (p.184-197) in: [“O Livro Vermelho de C.G. Jung para o nosso tempo: em busca da alma sob condições pós-modernasArzt, Thomas e Stein, Murray (org). Petrópolis-RJ: Vozes, 2022.

YALON, Irvin D. De Frente para o sol: como superar o terror da morte. RR Agir, 2008.

 ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (org). Ao Encontro da Sombra: O potencial oculto do lado escuro da natureza humano. São Paulo: Cultrix, 1994.

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