O ver através da obra “Mão com esfera refletora” do artista M. C. Escher (1898-1972)

A vida contemporânea tem provocado discussões a respeito do papel daqueles que trabalham sob o enfoque “ser terapêutico”. Refletir sobre a perspectiva da psicologia junguiana contemporânea é considerar a ampliação dos conceitos como também da percepção em relação ao trabalho clínico junguiano.
As inquietações que gostaria de partilhar surgem da reflexão sobre o estudo “O eu: singular entre múltiplos”. Os textos propostos para este estudo debatem e propõem uma discussão sobre a relação do complexo do Eu (ego) e o seu dinamismo psíquico com o Self. Assim, imaginar uma interlocução a partir de um Eu (ego) moderador/ou em relação com as partes da psique profunda do indivíduo nos convida a olhar essa dimensão ampla, considerando o centro da consciência num liame de mão dupla com a imagem Self ou centro do inconsciente.
A propósito da tomada de consciência do Eu, somos convidados a ir em direção ao Aion; “o Eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa (...) pois não há conteúdo consciente que antes não tenha se apresentado ao sujeito” (Edinger, 1996, p. 18).
Inspiração! A reflexão sobre esse tema relacional citado por Edinger (1996) nos coloca frente a frente também com a nossa sombra e isso suscita uma lembrança que se deflagra na obra “Mão com esfera refletora”, de 1935, do artista holandês M. C. Escher (1898-1972), que nos faz o convite a perceber e ampliar a imagem que é vista e refletida nesta obra, numa dinâmica de reconhecimento a si mesmo.
Contexto: Autor e Obra
O artista Maurits Cornelis Escher nasceu em 17 de junho de 1898, em Leeuwarden, Holanda. Nunca foi um exímio desenhista, além de ter muita dificuldade em matemática. Foi estudar Arquitetura, mas, por incentivo do seu professor Samuel Jessurun de Mesquita[1], após três anos, abandonou o curso para se dedicar às técnicas de gravura artística e xilogravura. Rapidamente surgiram as primeiras exposições e as primeiras publicações. O ano de 1922 foi muito importante para sua vida: Escher viajou e mergulhou no universo da Itália (Florença, San Gimignano, Volterra, Siena, Ravello e Roma), França (Paris), Espanha (Madri, Toledo e Granada), sendo que ficou impressionado pelo campo italiano e pela Alhambra, um castelo mouro do século XIV, em Granada, tendo uma expansão criativa sobre arquitetura e seus detalhes iconográficos.
Residiu em Roma (1924-1934), quando foi embora por conta da ascensão de Mussolini. Morou também na Suíça por dois anos e mais cinco anos na Bélgica, retornando para a Holanda em 1941, onde se estabeleceu até sua morte, em 1972.
As viagens serviram para Escher também como inspiração para o seu ofício, e são notáveis as influências mouro/árabes em seus trabalhos (por conta da sua viagem a Granada), como também a ideia do claro e escuro, dentro e fora, a visão em perspectiva, dos espaços geométricos e seus adereços, o que estimula a reflexão a partir do olhar junguiano.
A Obra “Mão com esfera refletora” (1935), uma litografia de 1935, de 32 x 21,5 cm, faz parte do grupo “Reflexões em esferas”. Este trabalho é um subícone, que está catalogado dentro da totalidade de suas obras, enquadrado dentro de um grande acervo de xilogravuras, litografias e desenhos[2].
Sobre a obra o autor se estende: O Espelho. Na mão do desenhador está uma esfera que reflete sua imagem. O olhar se volta para ele mesmo, ao mesmo tempo que a imagem reflete com a mais perfeita definição todo o ambiente que o rodeia, o que só seria possível através da auto-observação. Neste pequeno disco é reproduzido comprimidamente, mesmo que deformada, quase toda a totalidade do espaço à sua volta – quatro paredes, chão e teto do quarto. A cabeça, ou melhor, o ponto entre os seus olhos, encontra-se no centro. Para onde quer que Eu vire, ele será o ponto central. O ego é invariavelmente o núcleo do seu mundo (Escher, 2008 p. 13).
O claro e escuro se apresentam na dimensão refletida, segue-se entre a superfície e a profundidade, nesse mundo que exige a perspectiva da psique. Seus conteúdos dão a noção dessa extensão do espaço ao qual o Eu pertence, mas que ele, ao mesmo tempo, não está sozinho. Existe uma vastidão de elementos nessa profundidade que é percebida e objetivada, uma relação que se estabelece entre o mundo visível e o mundo em perspectiva.
O Espelho
Percebemos neste trabalho que Escher nos convida a olhar a partir do centro, porém, em seu reflexo, também descentralizando o mesmo olhar, numa difusa percepção do voltar-se, ao mesmo tempo, novamente para o centro: O Espelho.
A obra como uma foto gera um campo perceptivo que nos faz refletir que a consciência do Eu é a capacidade de distinguir ou discriminar entre sujeito/objeto e constitui uma de suas características mais definidas. Nesta elaboração, cita ainda dois aspectos importantes: o Eu como sede da percepção da consciência e como também o agente da vontade (Edinger, 1996). Aqui, a imagem do Espelho caracteriza e anuncia tal aspecto da psique, que é o que consideramos como o ver através.
Podemos ainda atribuir ao Espelho, no olho que se vê refletido, aquilo que pode ser encarado, visto, pois também gera algo inoportuno, que incomoda. A natureza do Eu torna-se um fenômeno superficial; abaixo da capa do Eu, caminhamos em direção à psique individual para confrontação com a sombra. Porém quando adentramos na sombra, iremos em direção desse campo mais ampliado da consciência, esse mundo fantástico do imaginar.
Esse olhar que se volta para o confronto com aquilo que é deixado de lado, desconsiderado, que incomoda, que é negado, reprimido, é o caminho a ser feito. Aquilo que não quero ver, mas que no Espelho, na potência reflexiva, nos leva em direção à consciência e nos convida a enxergar aquilo que está próximo, mas também distante, está além.
Chegamos ao impasse: qual a capacidade do Eu em suportar esse confronto? Seria o confronto com a sombra? Com aquilo que não cortejo em mim mesmo?
Edinger apresenta no texto Aion, na sua primeira parte dos seus seminários, e aqui gostaria de ater-me às várias versões da relação do campo da consciência do Eu: Eu em relação à sombra; o Eu em relação à sizígia animus e à anima; o Eu em relação ao Self.
A reflexão proposta a partir da obra de Escher, onde somos tocados pela percepção inicial do reconhecimento da consciência do Eu e, a posteriori, do seu confronto com a sombra, é fronteiriça.
O processo de individuação é um acontecimento psicológico em que a assimilação dos conteúdos do inconsciente pela consciência é vital para o desenvolvimento psíquico do indivíduo. Neste sentido, a consciência do Eu e sua capacidade de assimilar os conteúdos da sombra tornam-se primordiais para o decorrente amadurecimento do indivíduo e o seu possível desenvolvimento. Lógico que a interface desse processo não é fácil, pois existe sofrimento, dor e também suas resistências.
No processo da análise junguiana, é interessante observar que muitas vezes o Eu tem muita dificuldade em assimilar os conteúdos da sombra pois está aquém da sua compreensão e, ao resistir a este processo, projeta tais conteúdos no meio externo. Edinger, citando Jung, relata o efeito nefasto e dissociativo que este tipo de projeção causa ao sujeito, dando uma sensação fantasiosa e ilusória que pode aparecer, desviando a energia psíquica do sujeito, alimentando o complexo autônomo e muitas vezes perdendo a sua autonomia (Edinger, 1998).
Assim, é de total importância para o trabalho analítico o recolhimento dessa projeção, para que a energia psíquica volte ao seu fluxo, propiciando e alimentando o desenvolvimento psicológico do indivíduo.
É importante lembrar que estudar Jung é ter acesso a uma biografia pessoal, que nos mobiliza, especialmente em seu livro “Memórias, Sonhos e Reflexões”, que serve como inspiração poética, bem como também concepção teórica. Uma inquietação pessoal nos dirige a ampliar o , considerando a música, a 7ª arte e as artes plásticas como sendo um campo de interlocução com a loucura, a saúde mental, a reinserção psicossocial e a clínica junguiana.
A imagem da obra, O Espelho, faz referência a esta parte da psique que muitas vezes negligenciamos em prol de outros aspectos, porém ela é fundamental e estruturante para a assimilação dos conteúdos provindos do inconsciente.
Enfim, é inegável que, para uma análise junguiana ter êxito, este processo deve dar ênfase aos aspectos negligenciados pela psique, como também jogar luz no campo da consciência do Eu e na sua função no processo de assimilação dos conteúdos inconscientes. Cabe lembrar que essa relação é importantíssima e que, nesse sentido, todo analista fundamentalmente deve visar essa perspectiva como sustentação do seu trabalho clínico em vista do processo de individuação do analisando.
Referências Bibliográficas
EDinger, E. F. A criação da consciência: o mito de Jung para homem moderno. São Paulo: Cultix, 1998.
EDinger, E. F. The Aion lectures: exploring the self in C. G. Jung´s Aion. Toronto: Inner City Books, 1996.
Escher, M. C. Gravuras e Desenhos. Colônia: Taschen, 2008.
JUNG, C. G. Mysterium coniunctionis. Obras completas, v. 14/2. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
[1] Artista holandês conhecido por suas xilogravuras, litografias e meios-tons (mezzotints), que tendem a representar explorações do infinito e padrões geométricos.
[2] Uma produção de 448 litografias e xilogravuras e mais de 2 mil desenhos e esboços, além de ter ilustrado livros, tapeçarias, selos e murais. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quem-foi-m-c-escher (acesso em: 16 jun. 2023).




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